terça-feira, janeiro 27, 2009

O Teatro dos “Vencidos”

Correio da Bahia, Salvador, sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 (página 17)
Por Jean Wyllys

Os atores baianos Adriana Amorim e Alain Félix, da Companhia Rebanho de Atores, levaram uma encenação do clássico Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, a escolas da periferia de Salvador graças ao Prêmio Myriam Muniz que receberam da Funarte. Mas quem soube disso além dos professores e alunos beneficiados? Ninguém. Nem mesmo a classe teatral soube. E sabem por quê? Porque o “jornalismo cultural” baiano não deu a menor bola para o fato de que uma companhia teatral baiana ganhara um prêmio de relevância nacional por conta de um projeto que se propunha ampliar o repertório cultural de estudantes pobres. O “jornalismo cultural” baiano está obtuso e preso às suas velhas “panelinhas”...

Se, daqui a 30 anos, alguém quiser saber como era a cena teatral baiana do início o século XXI e for buscar em jornais da época as informações, certamente vai construir um imaginário pobre acerca do teatro feito na Bahia; vai acreditar que a cena dependia de poucos e mesmíssimos artistas – os quais a gente pode chamar de “vencedores”, seja porque tem os meios de se articular com governo e iniciativa privada para conseguir patrocínio, seja porque estão sempre de acordo com as linhas editoriais e tendências políticas dos jornais.

O “jornalismo cultural” como está sendo feito subtrai a história e faz com que a versão e a produção dos “vencidos” se percam no rastro de sua própria “derrota”. É nesse sentido que se pode dizer que o livro O Teatro na Bahia através da imprensa – de autoria da dramaturga Aninha Franco e publicado em 1994 – é parcial e pouco crítico. Nele, não há versão nem a produção dos “vencidos” dos “ignorados”.

E essa minha crítica ao “jornalismo cultural” baiano acaba de ganhar um reforço de peso. Trata-se do livro Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia, escrito pela atriz e jornalista baiana Jussilene Santana e que analisa a emergência do teatro como tema na imprensa baiana em meados do século XX. Fruto de um mestrado na Escola de teatro, o livro será lançado oficialmente no próximo dia 05 de fevereiro na LDM.

Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia traz informações jamais analisadas sobre teatro baiano e, por comparação, serve de crítica demolidora à parcialidade e à ignorância do “jornalismo cultural” feito em Salvador na contemporaneidade. Jussilene Santana não é nada complacente com Aninha Franco, que, segundo a atriz e jornalista, não conseguiu ser crítica quando recorreu a matérias de jornais para escrever seu livro. Para Jussilene, Aninha Franco tratou os desiguais discursos e coberturas jornalísticos – cujas posturas políticas e estéticas são bem distintas – de maneira genérica; tratou tudo como “o discurso da imprensa”.

A atriz chama a atenção para o fato de que os jornais não apenas discordam entre si, como também modificam publicamente opiniões sobre eventos e artistas quando estes assumem posturas que se afastam das linhas editoriais defendidas ou mesmo por questões pessoais dificilmente diagnosticáveis. “Não há como contar uma história pela imprensa sem analisar isso”, ela diz. A conseqüência da falta de crítica de Aninha Franco ao lançar mão dos jornais para contar a história do teatro na Bahia é, segundo Jussilene Santana, que, em Teatro na Bahia através da Imprensa, não há qualquer referência a eventos promovidos por Eros Martim Gonçalves à frente da Escola de Teatro que, no mínimo, tornariam mais complexo o rótulo dado ao encenador de “adepto de estrangeirismos”. Gonçalves montou o primeiro espetáculo teatral de cordel na Bahia, entretanto este fato não é contado no livro de Franco nem está no imaginário da classe teatral porque não foi registrado pelos jornais que, à época, viraram as costas para o então diretor da Escola de Teatro da universidade da Bahia. Se o “jornalismo cultural” ainda hoje vira as costas para certas produções teatrais, como o fez no caso da encenação de Cyrano de Bergerac pelo Rebanho de Atores, o livro de Jussilene Santana se torna uma leitura mais do que obrigatória para artistas e jornalistas.

1 Comments:

Blogger Elenilson Nascimento said...

Ola Jussilene, tudo bem? Olha , ontem eu mandei uma pergunta para a r´´adio q nao foi lida. eu gostaria de saber o que vc acha desses cursos de jornalismo na Bahia? Eu abandonei um na Unibahia pq achei que estav perdendo o meu tempo (alem disso nao tinha mais dinheiro para pagar). Sou formado em Letras, mas nao quero mais ficar na educaçao. E acho q os curso universitarios estao cada vez pior.

Vc daria uma entrevista sobre esse assunto la no blog? Por favoooooooorrrrrr!!!!!!!

11:59 AM  

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